O Pirotécnico Zacarias
Rui Mourão

Neste texto, o escritor e ensaísta mineiro Rui Mourão estabelece comparações entre a obra de Rubião e a de Machado de Assis.

Revista Colóquio – número 25 – Lisboa – Portugual – maio de 75


Inúmeras são as experiências que vêm sendo levadas a efeito pela ficção e, particularmente, pelo conto mineiro, mas creio que elas podem ser resumidas em três tendências principais: a busca da simplificação e objetividade concretizante; a exploração da linguagem expressionista, simbólica, alegórica ou surrealista que conduz ao mágico; e a pesquisa que visa o remanejamento das massas arquitetônicas da narrativa. É certo que em muitos casos esses caminhos se cruzam, geram obras complexas porque abertas para mais de uma perspectiva, tornando difícil o trabalho do analista que as deseja caracterizar, mas de qualquer forma, para uma demonstração de objetivo didático, sempre será possível isolar autores ou obras que se singularizam pela fidelidade maior a uma daquelas linhas de força.

Com Murilo Rubião vamos ter o protótipo duma ficção que procura um realismo, digamos, de segundo grau, aberto para o onírico e para os desvãos indevassáveis da consciência. Trabalhando num mesmo sentido obstinado desde o final da década de 30, ele pode ser considerado o grande antecipador no Brasil da tendência mais marcante do atual surto da ficção latino-americana, sendo que a sua formação – fato ainda hoje inteiramente ignorado – o vincula a uma das nossas linhas mais conspícuas de criação genuinamente nacional. Efetivamente, um estudo de sua obra em confronto com a de Machado de Assis alcançaria inegável rendimento crítico. Leitor obsessivo do grande ficcionista, foi em certas páginas dele que o contista entreviu as possibilidades daquilo que viria a criar. Além de outros elementos que possam ter influído, nos parece que a centelha desencadeadora deve ter sido o contingente da conhecida sandice do mundo machadiano, que se entrevê, seja no capítulo “O Delírio”, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, seja na descrição da psicose progressiva do personagem principal, em Quincas Borba, seja na totalidade duma novela como O Alienista – textos altamente simbólicos e alegóricos.

Esta afirmativa, é claro, não teria maior interesse se ficasse apenas no plano das generalidades e não pudesse ser objetivamente desenvolvida. Ocorre que o conto intitulado “O Pirotécnico Zacarias”, que dá título ao volume agora publicado, constitui uma comprovação quase perfeita da convivência do autor com as Memórias Póstumas de Brás Cubas. A tal ponto que, à primeira vista, somos levados a considerá-lo como o esforço dum miniaturista que desejasse trabalhar sobre o romance. Quem não se lembrará das considerações iniciais do narrador-defunto Brás-Cubas, no Pórtico do seu livro, ao ler as considerações iniciais do narrador-defunto Zacarias, na abertura do seu relato? A diferença que se pode apontar na situação dos dois personagens é a de que Brás Cubas se apresenta como testemunha entre os vivos, na condição de fantasma imperceptível aos olhares terrenos, enquanto Zacarias permanece na condição de fantasma perceptível, mas ambos, logo depois daquela conversa inicial, passam a descrever o seu óbito. Relatado o óbito e indicada a causa mortis, nos dois textos se verifica um movimento de regressão temporal que vai mostrar os heróis em recuada idade juvenil, mas é preciso que se saliente que, no conto, existe inclusive o episódio do delírio que precede a morte.

O sarcasmo com que examinou friamente a sua condição de corpo-trambolho a constituir problema para os que dele precisam se livrar o mais expeditamente possível é em Zacarias muito semelhante ao de Brás Cubas, e o necrológio que imagina feito pelo amigo da Gazeta é rigorosamente paralelo, pois a linguagem de lugares-comuns tem a mesma intenção grotesto-satírica, e a exageração de mau gosto comparativo que em Machado põe a natureza inteira, de tempo nublado, chorando pelo defunto, em Rubião faz com que a morte do personagem, devido à sua condição de pirotécnico, seja descrita como o deflagrar de fogos de artifício que, antes de se apagar, desdobram-se em “maravilhosas cambiantes”, de fulgurante beleza, em contraste com as “lágrimas infinitamente mesquinhas e ridículas” dos que lhe sobrevivem.

No conto “A noiva da Casa Azul”, de O Ex-Mágico, não havia apenas o título a lembrar a Casa Verde de O Alienista. O tema era o da fragilidade da consciência e da caracterização das rampas em que ela de repente se via incontrolavelmente precipitada, quando procurava tão-somente se orientar pela lógica da razão e do bom senso.

Um aspecto geral comum aos dois autores é o contraste entre uma linguagem policiada, disciplinada, despojada – rigorosamente enquadrada na lógica gramatical mais cristalina – e uma invenção de mundo fantasista, alucinada e ingovernável. No plano da frase, o escritor está sempre à cata do termo próprio, da precisão substantiva, se excede no uso de elementos de ligação, de desdobramentos explicativos; no plano das unidades superiores à frase, está sempre à procura do vago, da duplicidade significante, se desmanda no uso de elementos que visam à desconexão, à produção do desconforto e das surpresas chocantes. Parece que o objetivo é o de deixar o leitor pisando ao mesmo tempo no plano do lógico e do ilógico, do verossimilhante e do desconhecido – numa continuada denúncia do que na realidade existe de incongruente e de compósito.

O conto “O Ex-Mágico da Taberna Minhota”, também inserido na coletânea agora publicada, revela inclusive como aqueles dois planos são permutáveis: o personagem, de repente, passa a ver a quotidianidade de sua vida sendo invadida pelo desvario dos poderes mágicos, e quando se acomoda ao novo estado de coisas e acredita que a sua realidade é aquela, de uma hora para a outra percebe que a banalidade e a mesmice de novo já se encontram entronadas em sua existência. Esse movimento rotativo dos planos do real independe do indivíduo que, ao contrário, não passa de joguete em suas mãos: sentindo o incômodo do seu poder mágico incontrolável, o personagem busca a libertação pelo suicídio, mas não consegue vencer o cerrado bloqueio das suas próprias prestidigitações: inventa leões para que o devorem, e estes, destituídos de agressividade, acabam sendo é almoçados por ele; salta dum abismo e, quando está na expectativa do fim, se vê amparado por pára-quedas; dá um tiro no ouvido, mas o efeito é imperceptível porque a arma se transformara em lápis. Daí a pouco, quando a situação já se encontra no seu inverso, inutilmente tentará fazer reviver a antiga habilidade.



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